
“(...) o saber que é poder não conhece limites. Esse saber serve aos empreendimentos de qualquer um, sem distinção de origem, assim como, na fábrica e no campo de batalha, está a serviço de todos os fins da economia burguesa.”
Adorno e Horkheimer
“(...) não houve laicização da política, mas apenas um deslocamento do lugar ocupado pela imagem de Deus como poder uno transcendente: Deus baixou do céu à terra, abandonou conventos e púlpitos e foi alojar-se numa imagem nova, isto é, no Estado. Não quero com isto referir-me ao direito divino dos reis. Refiro-me à representação moderna do Estado como poder uno, separado, homogêneo e dotado de força para unificar, pelo menos por direito, uma sociedade cuja natureza própria é a divisão das classes. É esta figura do Estado que designo como a nova morada de Deus.” (CHAUÍ, 1989: 6)
Encontramo-nos, então, diante de um sistema que é capaz de dominar em proporções inimagináveis. À medida que racionaliza as estratégias de controle, tem cada vez menos que recorrer propriamente à repressão, o que é ao mesmo tempo vantagem e prejuízo. Vantagem para o sistema, porque a repressão provoca ressentimento, podendo levar à revolta. Vantagem para as pessoas, porque a experiência domesticadora não é violenta, mas sutil; oferece o conforto propiciado pelo desenvolvimento tecnológico, e obtém adesão entusiasmada.
“a sociedade tecnológica ocidental criou métodos para ajustar as pessoas às suas exigências de produção e consumo que são menos brutais, mas que, a longo termo, são mais eficazes que a represão totalitária. Eles despersonalizam não porque exijam, mas porque eles oferecem, dão exatamente aquelas coisas que tornam supérflua a criatividade humana.” (apud ALVES, 1984: 111)
A educação preocupa-se, prioritariamente, em forjar a inteligência adaptável ao sistema, necessária à sua eficácia, capaz de se curvar à ideologia do realismo, que apresenta a realidade presente como, se não a melhor, pelo menos a única realidade possível:
“Para propósitos práticos, o pragmatismo e o funcionalismo identificam o sistema social com a realidade. Está aí o segredo do realismo”. ( ... ) “No entanto, o realismo é uma ilusão. Sua grande conquista é a mágica transubstanciação que opera ao chamar a organização pelo nome ‘realidade’.” ( ... ) “O realismo é, portanto, a ilusão que nos enfeitiça com a sua afirmativa de que a realidade não pode ser alterada, tornando o homem incapaz de um ato criativo.” (ALVES, 1993: 68-72)
Qualquer pensamento que traduza a imaginação de um mundo diferente do construído pelo sistema tecnológico, que pretenda apontar novas alternativas de vida é desqualificado como produto do imaginário, patologia da verdadeira racionalidade, pois, “a ordem existente é vista como encarnação da razão, e como tal expele, como detritos pré-históricos de um universo irracional, todos os elementos que poderiam transcendê-la”. (ROUANET, 1986: 201)
“As formas de dominação mudaram: tornaram-se cada vez mais técnicas, produtivas, e inclusive benéficas; conseqüentemente, nas regiões mais desenvolvidas da sociedade industrial, as pessoas têm sido adaptadas e reconciliadas com o sistema de dominação num grau sem precedentes.” (MARCUSE, 1969: 149)
O papel do homem no sistema tecnológico é o de funcionário do sistema, isto é, sua existência só se justifica enquanto possibilidade de como produtor e/ou consumidor ser capaz de contribuir para a sua funcionalidade. Aqueles que o sistema vai substituindo por máquinas ou robôs tornam-se disfuncionais para o sistema. São excluídos por serem desnecessários para a sua eficácia. E sua exclusão se justifica em nome da racionalidade.
O desenvolvimento cada vez mais acelerado da tecnologia, a maior racionalização da sociedade não somente não tem contribuído para tornar a vida humana mais livre e mais justa, como tem submetido todas as necessidades e desejos humanos aos imperativos do sistema. Segundo Adorno e Horkheimer,
O absurdo da situação, na qual a violência do sistema sobre os homens cresce a cada passo que os liberta da violência da natureza, denuncia como obsoleta a razão da sociedade racional. (...) a história real é tecida por um real sofrimento, que absolutamente não diminui na proporção em que crescem os meios para eliminá-la (...) (1989: 28-29)